Como Ser um Bom "Unschooler"

Prefácio por Sandra Dodd: A Pam Sorooshian escreveu algo perfeitamente deslumbrante e deslumbrantemente perfeito. Ela não mandou um título para o texto. Eu chamei-lhe "Como ser um bom 'unschooler'", mas também podia ser "Como ser um bom pai", ou "Como ser uma boa pessoa". É um sumário de alguns dos melhores saberes sobre "unschooling" dos últimos 12 ou mais anos. Vai ajudar a melhorar a vida das famílias durante muitos anos ainda.

Isto foi algo que publiquei no fórum de discussão HSC ("Homeschooling Association of California"), em resposta a uma discussão que emergiu de uma pergunta sobre como motivar uma criança a fazer os trabalhos da escola:

1. Dêem o vosso amor generosamente e as vossas críticas parcamente. Sejam parceiros dos vossos filhos. Apoiem-nos e respeitem-nos. Nunca os depreciem nem depreciem os seus interesses, não importando quão superficiais, pouco importantes ou até equivocados os mesmos vos pareçam. Sejam um guia, não um ditador. Iluminem os seus caminhos e dêem-lhes a mão, mas não os arrastem, nem os puxem. Por vezes, IRÃO desesperar, quando a vossa visão daquilo que os vossos filhos deviam ser colidir com a realidade de que eles são a sua própria pessoa. Mas essa mesma realidade também vos pode dar uma enorme alegria, se aprenderem a não se apegarem às vossas noções e expectativas pré-concebidas.

2. As crianças que estão em ensino doméstico, e que crescem num ambiente estimulante e enriquecido, rodeados pela família e por amigos que são, geralmente, interessados e interessantes, irão aprender todo o tipo de coisas e irão surpreender-vos, repetidamente, com aquilo que sabem. Se forem apoiados na procura das suas paixões, eles irão construir forças sobre forças e notabilizar-se nas suas próprias conquistas quer sejam académicas, artísticas, atléticas, interpessoais, ou qualquer que seja a direcção em que aquela criança em particular se está a desenvolver. Uma coisa leva a outra. Uma paixão por brincar na lama aos 6 anos de idade pode tornar-se numa paixão por proteger o meio ambiente aos 16, e numa carreira como guarda florestal na idade adulta. Nunca se sabe onde é que esses interesses de infância podem levar, eventualmente. Tenham cuidado para não os esmagar; pelo contrário, alimentem-nos.

3. Tragam o mundo até aos vossos filhos e levem os vossos filhos ao mundo. Rejubilem com aquilo que vos une enquanto família. Vejam televisão e filmes e ouçam música e rádio. Riam-se juntos, chorem juntos, fiquem chocados juntos. Analisem e critiquem e pensem em conjunto sobre aquilo que experienciam. Reparem naquilo que o vosso filho ama e ofereçam mais disso, não menos. O que é que têm os programas específicos que cativam o vosso filho --trabalhem a partir daí. Não funcionem por medo. Pensem por vocês e pensem na vossa criança real. Não sejam seduzidos por pseudoestudos levados a cabo com crianças que andam na escola.

4. Rodeiem o vosso filho de texto de todas as formas e feitios e ele/ela irá aprender a ler. Leiam-lhes, leiam à frente deles, ajudem-nos, não os pressionem. As crianças a quem foi permitido aprender a ler ao seu ritmo aprendem, efectivamente, a ler em idades muito diversas --NÃO existe uma idade certa para todas as crianças. Algumas aprendem a ler aos 3 anos de idade e outras aos 12 anos, ou mais tarde ainda. Não importa. As crianças que ainda não lêem, estão a aprender na mesma --apoiem as suas próprias aprendizagens, feitas à maneira deles. Pressionar as crianças para tentarem aprender a ler antes de estarem preparadas, em termos de desenvolvimento, é, muito provavelmente, e na melhor das hipóteses, uma das maiores causas da antipatia pela leitura a longo prazo e de dificuldades de aprendizagem, na pior das hipóteses.

5. Não importa quando é que algo é aprendido. É perfeitamente aceitável que uma pessoa aprenda tudo sobre dinossauros aos 40 anos de idade, não tem de o aprender aos 9 anos. É perfeitamente aceitável aprender a fazer divisões de números grandes aos 16 anos, também não têm de o aprender aos 9. Não se torna mais difícil aprender certas coisas mais tarde; torna-se mais fácil.

6. Não se preocupem quão depressa ou devagar eles estão a aprender. Não os testem para ver se estão "a par". Se os nutrirem num ambiente de apoio, os vossos filhos vão crescer e aprender ao ritmo deles, e vocês podem confiar nesse processo. Eles são como sementes plantadas em terra boa, regadas e fertilizadas. Não estariam continuamente a desenterrar as sementes para ver se as raízes estão a crescer --isso perturba o processo natural de crescimento. Confiem nos vossos filhos da mesma maneira que confiam que as sementes brotam e que os rebentos se desenvolvem para ser plantas fortes e saudáveis.

7. Pensem naquilo que é REALMENTE importante e mantenham isso sempre na primeira linha das interacções com os vossos filhos. Que valores esperam transmitir-lhes? Não podem "transmitir" algo que não exemplifiquem vocês mesmos. Tratem-nos da mesma maneira que querem que eles tratem os outros. Querem respeito? Sejam respeitosos. Querem responsabilidade da parte deles? Sejam responsáveis. Pensem em como é que vocês parecem aos olhos deles, da perspectiva deles. Vocês dão-lhes ordens? Isso é respeitoso? Vocês dizem, "Dá-me só um minuto" e depois demoram mais 20 minutos a falar com um amigo, enquanto a criança está à espera? Isso é responsável? Focalizem-se mais no vosso próprio comportamento do que no comportamento deles. A recompensa vai ser bem maior.

8. Deixem as crianças aprender. Não as protejam nem as controlem de tal forma que elas não consigam ter experiências necessárias. Mas, não utilizem a justificação das "consequências naturais" para lhes ensinar uma lição. Em vez disso, exemplifiquem bondade e consideração. Se virem um brinquedo deixado à entrada de casa, não o deixem lá para ser atropelado, peguem nele e ponham-no de lado, porque isso é a coisa bondosa e atenciosa a fazer, e porque a bondade e a consideração são valores que querem transmitir aos vossos filhos. As consequências naturais irão acontecer, são inevitáveis. Mas deixa de ser "natural" se podem preveni-las, mas tenham escolhido não o fazer.

9. Não podemos remediar tudo aos nossos filhos, nem salvá-los de todos os sofrimentos. Pode ser um acto de equilibrismo delicado --quando é que devemos intervir, quando é que devemos manter-nos fora do caminho? A empatia faz muito e pode, com frequência, ser tudo o que seu filho precisa ou quer. Esteja disponível para oferecer mais, mas deixe o seu filho ser o seu guia. Talvez o seu filho queira orientação, ideias, apoio ou intervenção. Talvez não. Às vezes, o melhor que pode oferecer é distracção.

10. Seja sensível aos níveis de interesse do seu filho. Não force actividades que o seu filho não está interessado em seguir. Não permita que os SEUS interesses ditem as oportunidades do seu filho. Se o seu filho quer um animal doméstico, seja realista e não exija promessas de que a criança irá tomar conta do animal sozinha. Planeie tomar conta do animal você mesmo, quando o interesse desvanecer. Faça-o alegremente. Modele a alegria de cuidar de animais. Modele bondade e o ser prestável. Ajude uma criança ao organizar os seus brinquedos, para que estes sejam mais fáceis de cuidar. Planeie tomar conta deles você mesmo na maior parte do tempo, mas convide, de forma apelativa, o seu filho a ajudar. Se VOCÊ se comporta como se detestasse organizar e limpar, porque é que o seu filho haveria de querer fazê-lo? Aprecie abertamente todos os resultados de cuidarmos das nossas próprias coisas --faça notar o espaço extra para brincar, a facilidade de encontrar as coisas que queremos, como é bom chegar a um armário na cozinha e encontrar louça lavada. Apreciem o trabalho doméstico juntos e não façam disso um cavalo de batalha.

11. Não transmitam os vossos próprios medos e antipatias em relação a qualquer aprendizagem. Se detestam ou têm medo da matemática, guardem para vocês. Ajam como se se tratasse da coisa mais divertida do mundo. Aninhem-se e façam matemática da mesma forma que se aninham e lêem juntos. Joguem jogos, tornem a coisa divertida. Se não consegue manter o seu negativismo longe, pelo menos tente não causar danos, ficando de fora.

12. Não tente "fazer com que as crianças pensem". Elas VÃO pensar, não é preciso obrigá-las. Não usem todas as oportunidades para as forçar a aprender algo. Elas VÃO aprender algo a cada oportunidade, não têm de o forçar. Não respondam a uma pergunta dizendo-lhe "vai procurar" ou colocando outra questão. Se sabe a resposta, dê a resposta. Se não sabe, então ajude-as a encontrá-la. Especular sobre uma possível resposta normalmente desencadeia uma conversa interessante. Se o seu filho deixar de o ver como alguém que pode ajudar quando tiver perguntas, eles vão deixar de o procurar para as colocar. É isso que você quer verdadeiramente?

13. Quando oferece alternativas a uma criança, certifique-se que são alternativas reais. Ofereça-lhes alternativas tão frequentemente quanto possível. Tentem limitar os "têm de" (*) tanto quanto possível. Perguntem-se frequentemente, "Isto é mesmo uma situação "tem de" ou podemos encontrar alternativas aqui"?

Nota da tradução: Para uma melhor compreensão daquilo a que a autora se refere quando fala nos "têm de", recomenda-se a consulta do link http://sandradodd.com/haveto. Resumidamente, o que é defendido é que é fundamental mudar o nosso registo dos "têm de" para "escolhas" —o "unschooling" é uma forma de ver a vida recheada de escolhas, não de "têm de", pelo que se torna útil deixar de usar os "têm de" e substituí-los por um estado intencional de atenção plena, e sem julgamento, no momento presente ("mindfulness"), sobre as escolhas e opções que temos. Embora pareça um pormenor linguístico, o que é que é certo é que a forma como pensamos (ou seja, a linguagem que utilizamos para pensar) sobre aquilo que estamos a fazer, é de extrema importância.
—Marta Venturini Machado

Original, in English: How to Be a Good Unschooler Pam Sorooshian more in Portuguese